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Rio de Janeiro

Brasil Esquizofrénico

Acabámos de entrar no mês de Abril. Estamos a pouco mais de 2 meses do início do Campeonato do Mundo de Futebol de 2014, no Brasil. E, como bons descendentes de portugueses, como bons receptadores das nossas mais marcantes qualidades, as coisas não estão prontas para o pontapé inicial. Nada de grave. Não é nada que já não tenhamos presenciado em casa própria. Já se percebeu, com os portugueses, que quando estiver para começar, tudo vai estar pronto. É sina. Um modo de vida.

Mas grave, grave, é que o Brasil não se entenda sobre o Mundial: ama-o e odeia-o. Está esquizofrénico. Quer ganhá-lo e perdê-lo. Quer os estádios novos, mas também escolas, hospitais, transportes e segurança. Qur encher os estádios, mas também as ruas. O Brasil é um país novo, mas com história. O Brasil é tudo e o seu contrário. O Brasil está esquizofrénico? Não, na verdade, nós é que não conseguimos perceber as contradições. É assim que o Mundo funciona, de contradição em contradição. E são as contradições que fazem o Mundo avançar. E, ao Brasil, ninguém o pára. Nem a ditadura o parou, nem a corrupção, nem o tráfico, nem a pobreza, nem as balas perdidas na noite. Sejamos claros: com tudo o que de bom e de mau tem, o Brasil é, definitivamente, o país do futuro. E é por isso que o Campeonato do Mundo de Futebol, mesmo que aos solavancos, vai acontecer e ser um sucesso. Mas depois disto, o Brasil não voltará a ser o mesmo. E nem a FIFA. São as contradições de um país esquizofrénico, cheio de tudo e de nada, mas onde a história acontece, em directo.

A Segurança

A notícia que invadiu no Domingo os meios de comunicação social não deixava dúvidas: as autoridades do Rio de Janeiro entraram no Complexo do Maré, um conjunto de várias favelas no norte da cidade do Rio de Janeiro, para onde os traficantes de droga se tinham refugiado depois de terem sido afastados de outras favelas mais próximas do centro da cidade e de zonas mais turísticas (leia-se, Zona Sul) e tomaram o controle do complexo, garantindo que a segurança será para continuar para além do Campeonato do Mundo de Futebol.

Lê-se e tenta-se perceber: o Brasil descobriu que pode ser um destino turístico de primeira se erradicar a falta de segurança das grandes cidades?

Complexo do Maré

As autoridades invadiram o Complexo do Maré, no norte do Rio de Janeiro

Demasiado complexo para ser debatido aqui e agora. Depois do Mundial, ou até mesmo depois dos Jogos Olímpicos que vão ainda virar mais do avesso o Rio de Janeiro, se verá até onde se estende a política do Estado Federal. Mas é bom que se perceba que a segurança foi uma das principais reivindicações das enormes manifestações que se levantaram o ano passado, por alturas da Taça das Confederações. Assim, de uma assentada, dá-se mais segurança aos manifestantes por um Brasil padrão-FIFA, mais segurança aos turistas que vão ao Brasil para o Campeonato do Mundo e não só, controla-se, um pouco, a economia paralela que a droga movimenta, e tenta-se fazer passar a mensagem que o Estado está atento, é interventivo e garante que se pode contar com o Brasil do futuro.

De qualquer forma, a segurança será, sempre, uma questão delicada. Não pode ser de menos, mas também não pode ser demais. Muito presente está ainda, na memória de muitos brasileiros, a ditadura militar que governou o Brasil durante muitos anos. É preciso agir com muito cuidado. Até porque a violência tende a ser diferente. Já não são os grupos de traficantes e marginais. Agora são os jovens, os estudantes, os trabalhadores, a imensa classe C.

A Economia

Lá como cá, e por todo o Mundo, as mesmas discussões. A economia roubou protagonismo à política. Até quando? Sai-se de uma ditadura e entra-se noutra. Discute-se a macro-economia, mas essa não se faz sentir nos bolsos das pessoas. Vamos lá por partes: o preço de um bilhete para um jogo do Campeonato do Mundo para um brasileiro custa entre 100 a 620€ – o salário mínimo no Brasil é de 233€. Este Mundial é para um Brasil padrão-FIFA. E onde está esse Brasil? Calma. Esse Brasil também existe, ainda é pequeno, mas existe e está a disseminar-se. Quando se pensa que, não há muito anos a moeda brasileira era símbolo real do poder da inflação, mudando todos os dias, a todas as horas, e foi Cruzeiro, Cruzado, de novo Cruzeiro, que descia, subia, voltava a descer e que só parou e estabilizou no Real, e agora já não precisa de Dólares e os câmbios só em dia marcado e nos bancos e casas autorizadas, o Brasil que sobreviveu a uma ditadura e a Fernando Collor de Melo, é hoje um país rico e caro, menos violento e menos desigual, mas ainda não é de todos. Mas tem condições para o ser. Se não o transformarem no quintal das traseiras de aristocratas falidos e cheios de si.

Sim, é certo que as contas andam um pouco trocadas, o Brasil não cresceu o que se esperava que crescesse, há algum medo, justificado, da inflação

Feira em São Paulo

Uma feira em São Paulo, faz mexer a economia

disparar, e o povo não deixa as ruas. Aquele fantasma abstracto dos mercados anda assustado. Nas vésperas destes dois grandes eventos que o Brasil se prontificou a organizar – o Campeonato do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos -, dá-se um crescendo de agitação social, e ninguém sabe como é que esta agitação irá conviver com o eventos. É verdade que o Brasil está orgulhoso do que está a fazer. Mas também triste. Faltam-lhes hospitais, escolas, transportes públicos, mas os gastos com os estádios e as infra-estruturas para o Mundial disparam todos os dias. A ausência das estruturas temporárias em estádios importantes, como o Arena São Paulo, ou Estádio do Itaquerão, levam a enormes despesas e a grandes desastres. Como se não bastasse o enorme atraso na entrega do estádio, os trabalhos neste estádio pararam devido a mais uma morte de um trabalhador na montagem das estruturas temporárias. Depressa e bem, não há quem, especialmente quando se está em regime de poupar dinheiro porque os orçamentos previstos já dispararam há muito, supõe-se que para dentro de alguns bolsos.

E no Brasil, as dúvidas são as mesmas que em muitos outros países. O que é que a democracia está a fazer ao meu país, à minha vida? Porque, olha-se para trás, para anos da ditadura militar, vê-se o que foi preciso fazer para ultrapassar essa doença e, depois, parece que essa mesma doença contaminou a democracia. Os escândalos de corrupção são inúmeros, e em eventos de tão grande envergadura, como são o Campeonato do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos, é ver as enormes derrapagens orçamentais que, invariavelmente, são pagos pelos impostos, ou seja, pelo povo, e que acabam no bolso de alguém. Em Portugal também houve casos assim na Expo ’92 e no Euro 2004. E como é que terminaram? Ninguém sabe. Provavelmente, redundaram em nada.

Lá como cá, está toda a gente cansada. Perdem-se as ilusões. Deixa-se de acreditar. Primeiro, nos políticos. Depois, nas pessoas. Por último, no país. A economia brasileira parece não arrancar. Uma economia que parecia estar a explodir, que parecia estar a tirar milhões de brasileiros da pobreza (e tirou, de facto), e agora parece estar a estagnar. Até a Petrobrás, a grande empresa brasileira, capaz de levantar a economia de estados federais mais débeis, está numa encruzilhada. É que já não chega, para contento do povo, a novela das 8, o futebol e o Carnaval. O povo quer mais. O povo está mais exigente. A enorme classe C quer mais que novelas. E não se contenta com as migalhas que lhe querem dar, do que sobra de tudo quanto é roubado. É claro que o brasileiro continua a gostar de ver a novela, e a gritar pela selecção canarinha e a dar um pezinho de dança sempre que ouve um samba, mas isto só por si, é insuficiente. O brasileiro já aprendeu que a vida é muito mais que isto, e que o Brasil é grande e rico e poderoso, o suficiente para tratar deles. O Brasil está ansioso. E as coisas vão ter de mudar.

A Política

Não deixa de ser interessante que se dissesse que este, era o ano do Brasil. É verdade que é o ano do Brasil. Mas já não só daquele Brasil que monta a crista da onda e tem dinheiro para viver os grandes eventos que o país organiza. É o ano do Brasil dos brasileiros. De todos eles, e de cada uma das maneiras como é entendido. Para cada Brasil, seu ano, sua forma, sua beleza e vontade.

O brasileiro que vem para a rua manifestar-se quer fazer chegar o seu grito aos ouvidos da Presidente, e Dilma já disse várias vezes que tem ouvido

Manifestações no Brasil

A Presidente Dilma Rousseff garante ouvir a rua

esses apelos. Mas em inúmeras manifestações, o número de polícias é igual ao número de manifestantes. A corrupção continua a minar a democracia. E uma grande parte dos discursos, supostamente políticos, dos responsáveis políticos, soam a desculpas. Mas as manifestações, que têm estado mais calmas, não acabaram. Mesmo quando a comunicação social não acorre, os telemóveis encarregam-se de mandar a vida ao vivo para as redes sociais, garantindo que a vida do povo existe, mesmo que os jornais e as televisões, por vezes, lhes passem ao lado. A rua está culta e sabe utilizar os gadgets que lhes puseram na mão.

É preciso, contudo, dizer que nem tudo é mau, nem tudo é confronto. O Brasil está mesmo esquizofrénico. Estas manifestações são apelos lancinantes de quem não quer que a vida lhes passe ao lado e seja tarde demais. O nível do desemprego está nos 5%. O preço da gasolina é controlado pelo estado. A pobreza extrema foi reduzida em cerca de 5% na última década. Os impostos mantêm-se. O Brasil é uma democracia. O Campeonato do Mundo de Futebol irá começar dentro de pouco mais de 2 meses. E logo depois irá começar a contagem decrescente para o início dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro.

E como se dizia, erradamente, sobre o sistema financeiro, o Brasil é demasiado grande para cair. Há é que mudar o paradigma económico.

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