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Pra Frente, Brasil 1970

Pra Frente, Brasil

Pra Frente, Brasil, é um filme de Roberto Farias, com data de produção de 1982, que pretende retratar uma época da história do Brasil, centrada no ano de 1970,  que coincide com a conquista do Tri-Campeonato Mundial de Futebol, ganho pela selecção brasileira à selecção italiana por 4 a 1, na final de 1970, no México.

Ora, vamos por partes. Primeiro, em Portugal não é muito comum o registo histórico do presente, ou mesmo de um passado recente, como fonte de inspiração cinematográfica. São, aliás, muitos poucos os filmes sobre, por exemplo, a guerra colonial, que opôs Portugal às suas futuras ex-colónias. Ou, por exemplo, sobre os seus 48 anos de ditadura. Ou, ainda mais, um olhar sobre a história presente que se supõe vir a ter repercussões no futuro. Um registo que seria normal, por exemplo, no cinema americano, é um facto muito exótico em Portugal. Há como que um medo da história, um medo do peso que ela transporta e da possibilidade do erro. Também é verdade que se fazem poucos filmes em Portugal, pronto. E se calhar o problema está mesmo aqui. A fraca quantidade limita a escolha.

Por outro lado, os brasileiros não têm esses problemas – fazem bastantes filmes por ano (política que não é de hoje, mas também é verdade que têm um mercado enorme) e, ao mesmo tempo, felizmente, conseguiram livrar-se de algumas das paranóias portuguesas que lhes poderiam estar na génese e retratar a história, a sua história, a história social, mas também a marcadamente ideológica e política, no fundo os momentos e factos que foram o motor da história e que fizeram do país o que ele é hoje, com as suas feridas, as suas misérias e as suas glórias.

1970

O resultado dessa tomada de posição perante a história, seja ela qual for, está em inúmeros filmes brasileiros. Mas o que aqui interessa, e porque o

fundamento é o Campeonato do Mundo de Futebol, o filme em questão é Pra Frente, Brasil, de Roberto Farias, um filme de denúncia política que teve a particularidade de ser escrito, produzido, realizado e exibido durante o período histórico entendido como o período da ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1985.

O período retratado é 1970, durante o mês em que decorre o Campeonato do Mundo de Futebol no México, fazendo-nos acompanhar os vários jogos

Roberto Farias Pra Frente, Brasil

Pra Frente, Brasil é o drama de um homem comum

da selecção brasileira ao mesmo tempo que decorre a acção, tornando-a, assim, parte da narrativa.

Estamos, portanto, em 1970. Uma parte do Brasil entende que se vive um período de grande sucesso económico, outra parte do país percebe que vive numa ditadura militar. Uma parte do país está agradecida aos militares por defenderem o país do comunismo, outra parte dos brasileiros combate esses mesmos militares. No meio de tudo isto está o homem comum. O homem que tem de trabalhar para dar de comer à família, à mulher, aos filhos. Um homem que vira a cara para o lado quando percebe a agitação, de um lado ou de outro, porque não é nada com ele. Um homem que tenta passar ágil, entre os capítulos da história, como se passasse entre os pingos de chuva, sem saber que, um dia destes, em é cima dele que o pingo tomba. E é o que se passa com o homem comum quando é sequestrado e obrigado a assumir uma personagem que não é a dele.

México ’70

Entretanto, começa o Mundial. O Brasil defronta a Checoslováquia e, logo aos 12′ de jogo começa a perder. Nada que assuste a selecção canarinho que, doze minutos depois empata o jogo através de Rivelino, garantindo que o Brasil continua atrás da vitória. E esta chega na segunda parte. Com golos de Pelé e Jairzinho, a selecção brasileira ganha à selecção checa por 4 a 1. O Brasil delira mas, ao mesmo tempo, vão desaparecendo pessoas. Como por artes mágicas. Puff. E a polícia não quer saber. Principalmente quando as mulheres procuram os maridos e a resposta que ouvem é que eles partiram para os braços das amantes. Há a realidade, há a fantasia, e depois há o medo. O Brasil vivia-os aos três.

Mas no futebol, o Brasil continuava em prova e, a 7 de Junho, defrontava a Inglaterra e, de novo, Jairzinho, com um golo solitário marcado aos 60′ deu nova vitória à selecção brasileira.

Brasil 1 - 0 Inglaterra 1970

Jairzinho que marcou em todos os jogos do Mundial fez o 1 a 0 contra a Inglaterra

E enquanto uma grande fatia do povo exultava com o feito a selecção de futebol, outra fatia de brasileiros, mais pequena, vivia as angústias da falta, do desconhecido, da ausência. E como num mundo kafkiano as gentes correm de um lado para outro, visitam hospitais, morgues, esquadras de polícia e a única coisa que encontram é o desespero da falta de notícias, do não encontro, da ausência de respostas. Onde está?

Ninguém sabe onde estão as pessoas que desapareceram, mas a selecção brasileira, essa estava em Guadalajara, no México, enfrentava a Roménia e vencia-a por 3 a 2. Com golos de Pelé e do inevitável Jairzinho. E esta vitória garantia ao Brasil o primeiro lugar no grupo com 3 vitórias em 3 jogos, 6 pontos conquistados, 8 golos marcados e 3 golos sofridos.

Na passagem aos quartos-de-final, a selecção brasileira defrontou a selecção peruana e, de novo, nova vitória. 4 a 2. Golos de Rivelino, Tostão e, quem mais? Jairzinho!

Depois, seguem-se as meias-finais e, aí, o país pára. O Brasil vai defrontar o Uruguai, os responsáveis pela grande depressão nacional de 1950, quando o Brasil perdeu em casa o título de Campeão do Mundo para os seus vizinhos do sul.

As Vitórias

Mas desta vez a história esteve com o Brasil. Os seus vizinhos do sul não foram sufucientes para por em causa o desígnio nacional. Uma vitória por 3 a 1 à selecção uruguaia. Golos de Clodoaldo, Rivelino e Jairzinho. A vingança estava consumada.

Mas por onde andavam os outros brasileiros, os que não tinham podido ver este jogo? Bom, alguns deles estavam fechados em armazéns, em casas isoladas, em quintas no fim do Mundo, outros procuravam-nos. Eram filhos, pais, irmãos, maridos, esposas, namorados, amigos. Enfim, corriam em conjunto três brasis, ou quatro, ou cinco, ou uma infinitude deles. O Brasil militar, o Brasil empresarial, o Brasil subversivo, o Brasil comunista, o

Brasil 4 - 1 Itália 1970

Na final, o Brasil derrotou a Itália por 4 a 1

Brasil do homem comum, o Brasil… É escolher. Num país que é quase um continente, há muitas maneiras de o ver, de o viver. Mas há só uma verdade. O Brasil é um gigante.

E chega a final. A selecção canarinho encontra-se com a squadra azurra. Quase que se poderia dizer que foi uma jogo sem história. Uma final fácil. Mas bolas, foi uma final. E o Brasil ganhou. E, supostamente, estavam em confronto as duas melhores selecções da época. E tudo começou a desenhar-se aos 18′ quando Pelé inaugurou o marcador. Depois a Itália viria a empatar o jogo. 1 a 1. Mas na segunda parte, Gérson volta a dar vantagem ao Brasil e, pouco depois, o inevitável Jairzinho dá um certo conforto à equipa, para, no fim de tudo, Carlos Alberto finalizar com o 4 a 1, resultado com que terminaria a final e o Brasil seria o primeiro tri-campeão na história do Mundial de futebol.

A euforia tomou conta dos brasileiros que vieram para a rua comemorar um feito só ao alcance das grandes potências, e então era isso que o Brasil era. O Brasil era (é) uma potência!

As Derrotas

Ao mesmo tempo, há gente que vive em outros mundos. Gente que tortura e que é torturada. Gente que mata e que é morta. Gente que faz desaparecer e que desaparece. Gente que se equivoca. Gente que se engana. Gente que está no lado errado da história.

No filme, esse foi o tempo do desenlace. Enquanto a selecção brasileira dava alegria a milhões de pessoas, meia dúzia delas vivia a angústia do

Roberto Farias Pra Frente, Brasil

No final, Pra Frente, Brasil termina como se fosse um western

morrer ou matar. Num final épico, em registo de western, Roberto Farias desata o nó da sua história e opõe, à alegria de milhões, o drama de alguns poucos. Os sobreviventes, os que tomaram consciência de que os dramas não aconteciam só aos outros, uniram-se aos subversivos e, como num final digno de um Mundial, defrontaram as forças da repressão, e houve baixas de parte a parte. Ali não houve espectadores, só intervenientes. Ali toda a gente foi activa. Ali, uns mataram. Outros morreram. E os sobreviventes, parte ínfima da história, iam já amputados de partes das suas vidas. Nada voltaria a ser o mesmo. E para que serviu tudo isto? O homem tem memória? O homem liga à história? O homem consegue arrepiar caminho?

Pra Frente, Brasil não é uma grande obra cinematográfica. No entanto, a sua pertinência como veículo da história é inegável. É um facto que as coisas aconteceram. Daquela forma ou de outra, pouco importa. O que importa é que quando não é connosco, nada tem muita importância. Mas por vezes esquecemos-nos que estamos numa tômbola gigante e que, sem darmos por isso, podemos ser os escolhido pelo destino. Para sermos os sacrificados.

Mas depois, o que fica? A memória. A memória daquela vitória no Mundial do México em 1970. Pra frente, Brasil!

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