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Daniel Blaufuks Rio

Rio de Daniel Blaufuks

Daniel Blaufuks foi ao Rio de Janeiro. E levou a sua câmara. Quis ver o Rio e mostrá-lo. Mas não o Rio dos bilhetes postais, das fotografias turísticas e de turistas, do Verão, do sol, da asa delta, de Copacabana e Ipanema e Leblon e Rocinha. Não o Rio de Janeiro pintado por Deus, num anfiteatro natural plantado sobre um palco cheio das ondas do Atlântico que banham as areias apinhadas de cariocas e gente que se banha e queima e se mostra e anda, corre e calcorreia o calçadão numa eterna e falsa leveza da vida.

Daniel Blaufuks foi ao Rio de Janeiro para ver e mostrar outro Rio que é o mesmo, embora seja outro, e que é tão ou mais belo que o primeiro, o que é vendido e revendido e oferecido e partilhado. Mostrado como o toque de Deus na Terra dos Homens. Não. Daniel Blaufuks foi ao Rio de Janeiro para ver o Rio que também o é mas que se esconde, se esquece, se envergonha de o ser nas sombras do outro.

Daniel Blaufuks foi ao Rio de Janeiro e veio carregado de flores e frutos e memórias, muitas memórias, que é assim que melhor lida com a parte mais iconográfica da cidade.

Daniel Blaufuks foi lá e voltou. Voltou com Hoje É Sempre Ontem: Um Rio de Janeiro. Uma colecção de olhares sobre uma das cidades sede do Campeonato do Mundo de Futebol de 2014 e cidade organizadora dos Jogos Olímpicos de 2016. O Rio visto de um outro olhar. De quem observa.

Hoje É Sempre Ontem

Daniel Blaufuks Rio

O Rio de Janeiro de Daniel Blaufuks é feito de interiores e exteriores.

Os dias sucedem-se, uns aos outros, parecendo iguais na forma, mas não no conteúdo. Como diz Daniel Blaufuks, “Tudo no Rio parece simples. A vida é uma longa sucessão de momentos agradáveis e de experiências maravilhosas. Um suco de açaí, um passeio pela floresta da Tijuca, uma picanha na Gávea, uma tarde de praia em Ipanema, um pôr-do-sol no Arpoador, e o dia ainda mal começou.”

Pois, mas isso é um Rio de Janeiro. Mas o Rio são vários, como se pode perceber e Daniel Blaufuks faz questão de realçar. Porque são essas camadas que ele tentou retratar. “Debaixo desta geografia prodigiosa existem várias camadas de bolor, de dificuldades, de amarguras, de perigos constantes. Disseram-me que a natureza possui aqui esta loucura impressionante apenas para que os habitantes da cidade possam manter-se minimamente sãos no meio do caos. Porque coexistem também uma zona sul e uma zona norte, um trânsito insuportável, balas perdidas aqui e ali, alguma arquitectura desumana, inúmeras burocracias incómodas, etc., etc.” Mas não é esta dualidade que faz uma cidade? Não são os contrastes que a marcam, a dignificam, lhe fazem sobressair as coisas boas que sobrevivem às más? E mesmo as coisas más, não têm perspectivas? Claro, algumas não. Mas a cidade (e não só o Rio de Janeiro) é isto mesmo. Um conjunto de muitas coisas, todas as coisas, boas e más, que se acompanham, se completam.

O Rio de Daniel Blaufuks é uma escolha pessoal desses vários Rios que acabou por descobrir. E depois, essa mesma escolha tornou-se fragmentária, porque em pedaços: pedaços de história, pedaços de estórias, pedaços de memórias, pedaços da cidade ou das cidades.

E hoje, este Rio de Janeiro onde ele esteve, onde nós poderemos vir a estar, e que o livro nos mostra em pedaços (como a própria cidade, afinal), não é mais que a cidade de ontem, a cidade que Tom Jobim definiu assim: “se viver em Nova Iorque é bom, mas é uma merda, viver no Rio é uma merda, mas é bom.”

Mas para Daniel Blaufuks, o Rio também é uma cidade de fantasmas que não tem medo de evocar. Tropeça em cada esquina em Rios de Janeiro que já não existem, como as zonas decadentes do centro, que clama parecenças com uma Lisboa que também já não existe. Cruza-se com Chopin, Carmen Miranda, António Botto, Machado de Assis e Stefan Zweig. O Rio de Janeiro do futuro é um compêndio do passado. Mas não é isto a patine das cidades?, da vida? Não é esta a sua alma? O que lhe dá existência?

Um Rio de Janeiro

Daniel Blaufuks Rio

O Rio de Janeiro de Daniel Blaufuks é feito de pessoas, de flores, frutos e cores.

Então vamos lá a ver que Rio de Janeiro motivou a objectiva da câmara do fotógrafo. Não foi o Rio solar e despreocupado e de geografia paradisíaca. Embora também. Foi o Rio de Janeiro de dias cinzentos a que se seguem dias brancos. Foi o Rio de Janeiro de chuvas torrenciais e intermináveis, de bátegas grossas e barulhentas que ampliam os odores da terra. Foi o Rio de Janeiro das praias desertas e de um certo frio (frio no Rio? Pois!). Foi o Rio de Janeiro sem banhos de mar, sem bronze, sem futebol na praia, sem jogging no calçadão e sem chop à beira-mar. Foi o Rio de Janeiro com uma certa melancolia europeia. Como afirma Daniel Blaufuks, “O Rio é também uma cidade como as outras. Pessoas tristes, pessoas alegres, pessoas em stress, pessoas deprimidas e, pior do que tudo, pessoas que nem sequer gostam de praia.”

A verdade é que ninguém está satisfeito com o que tem, a galinha da vizinha é melhor que a minha e o Rio de Janeiro é, afinal, uma cidade como as outras. Não. É falso. O Rio de Janeiro não é uma cidade como as outras, mas uma cidade que também tem coisas como as outras. O que não é a mesma coisa. O Rio é para o comum de nós “a alegria, o Carnaval e o futebol.”

Mas não é disso que trata Rio: Hoje É Sempre Ontem – Um Rio de Janeiro. O que o fotógrafo português Daniel Blaufuks quis fotografar foi o seu pedaço de Rio de Janeiro. O dele e só dele. Não o meu, o nosso, o dos outros. Mas o dele. Entre o que viu, o que sentiu e o que leu. Uma cidade onde as plantas, as flores e os frutos parecem mais viscosos, mais sexuais, prenhe de cores e cores e cores. Um Rio de Janeiro que só se parece com o Rio de Janeiro que Daniel Blaufuks viu. E que eu gostaria de ver, um dia.

Rio: Hoje É Sempre Ontem – Um Rio de Janeiro

de Daniel Blaufuks

Julho de 2013, Tinta-da-China

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